No livro ‘Cria da favela’, Renata Souza, moradora do Complexo da Maré traduz suas teses acadêmicas na poesia da luta de resistência à militarização da vida

Precisamos ser protagonistas da nossa própria história. Somos nós que devemos contá-la a partir das nossas vivências”. É nisso que acredita Renata Souza, mulher, feminista, negra e favelada. Em sua trajetória, ela busca, a partir da luta na favela, se impor como sujeito e não objeto da política. Um dos meios pelo qual reafirma isso é o lançamento do seu livro chamado “Cria da favela: resistência à militarização da vida”, no mês de setembro deste ano.

Assim como o processo de escrever artigos acadêmicos e defender teses foi um desafio, com o livro não foi diferente. Enfrentou a rotina de um território cercado de operações policiais, com desigualdade de condições e a dificuldade de concentração física e mental que teve. Só no ano de 2017, foi feita em média, uma operação a cada nove dias no Conjunto de Favelas da Maré, segundo o Boletim Direito à Segurança Pública na Maré.

Renata escreveu em momentos de dor, enquanto fazia uma análise sobre o processo de militarização da Segurança pública no Rio de Janeiro. O livro será lançado pela Editora NPC, organização que desenvolve um trabalho com a comunicação popular, alternativa e sindical do país há mais de 20 anos.

O livro é uma adaptação de sua tese de doutorado defendida há um ano pela UFRJ, com o tema “O Comum e a Rua: Resistência da juventude frente à militarização da vida na Maré”. Além de retomar esse tema, também é possível encontrar um breve memorial sobre Marielle Franco, vereadora executada em março de 2018. Marielle era sua amiga pessoal há mais de 20 anos e colega de trabalho por mais de um ano na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

“A intervenção militar é uma forma de continuar assassinando a nossa juventude negra, pobre, favelada e periférica. Não há democracia em espaços militarizados, estamos reféns dos desmandos de um governo golpista e sem legitimidade social. Em contrapartida, existem sim mecanismos de resistência da juventude que é alvo da violência do Estado, mas que resiste através da comunicação comunitária e da cultura, em especial a ocupação da rua”, afirma.

Texto publicado originalmente no Jornal Vozes das Comunidades.