No Piscinão de Ramos, na Maré, Geise Freitas tem uma rotina diferente das outras donas de casa. Ela acolhe cerca de 50 crianças em sua laje, para dar aulas de música. A filha de 9 anos aproveitou que a mãe estava de licença maternidade e chamou umas amigas para cantarem. Aos poucos o grupo cresceu. Desde então a dedicação de Geise ao trabalho voluntário é prioridade. Moradores da comunidade já conhecem as vozes do coral, que se apresenta em datas festivas na Praça da Alegria.

Há quase um ano, na primeira aula ela ensinou cantos de natal. E se surpreendeu com os gostos musicais. “Só cantam funk porque é apresentado pra eles, mas outras músicas também são absorvidas. Eles gostam de vários estilos”, comenta. Esses cantos deram início a uma série de shows e musicais em toda região.

A idade dos meninos e meninas varia de 3 a 13 anos. Mesmo assim, a amizade entre eles é forte. Geise afirma “A música é uma forma de trabalhar o emocional. Teve familiares que notaram mudanças no comportamento e contaram que as crianças ficaram mais calmas”. No dia das mães, por exemplo, algumas crianças choraram no ensaio, sensíveis com o que acontece no dia a dia.

Por escolha própria, saíram das ruas para aprender música. Mas ela quer fazer muito mais. “Começou ao acaso. Temos que nos preocupar agora não só com a formação musical mas com o psicológico dessas crianças, a fome que elas passam e outras dificuldades”. Para contribuir com isso, sua irmã começou a pagar um curso de formação de professores, para Geise poder alfabetizar aqueles que precisam. “Com 6 meses de coral, vi a necessidade de leitura deles na hora de falar os versinhos no musical”, afirma.

O tempo as vezes não ajuda. Quando chove não tem ensaio. A laje alaga e fica com vazamentos. Mesmo assim as crianças pedem aulas na chuva. Para participar do coral chamado “Crianças e vozes” não é necessário frequentar a escola, pois seria uma forma de exclusão. Mesmo com a falta de recursos, os alunos sentam no chão e cantam animados. Para resolver esse problema, estão reciclando garrafas PET, transformando-las em puffs. Depois do ensaio, os pequenos continuam na casa. Lancham e até jantam. Fazem de lá uma segunda casa.

Geise que está com 30 anos, teve seu primeiro contato com música aos 7. Seu pai musicista, pagou aulas de piano e o dom não demorou a aparecer. Seu conhecimento se expande: ela toca violão, flauta e também canta. Na igreja evangélica que frequentou, ganhou uma bolsa de estudos para se formar em música. Em troca, cantava nos cultos e musicais. Agora percebe a importância deste aprendizado.

A vontade de ajudar essas crianças não vem sozinha. Doações acompanham o crescimento do coral. O comércio local recebeu pedidos das próprias crianças que arrecadaram em uma semana R$1500. A empresa de design próxima da casa de Geise, fez a arte da logo. A Associação de Moradores cedeu uma quadra para as aulas por um tempo. Instituições doaram equipamentos como caixa de som, microfones e cabos, além de R$700, o que profissionaliza ainda mais o trabalho voluntário de Geise.

Dois amigos da turma de vôlei local colaboram nas apresentações. A produção dos eventos é toda feita por eles, desde contar histórias até fechar cortinas. Geise se orgulha em poder contar com muitas pessoas. O marido também é apoiador da causa. Já se vestiu de coelho na páscoa, e a empresa de ônibus que trabalha já doou 60 ovos de chocolate. Muitos receberam ovo de páscoa pela primeira vez.

Os ensaios não param: a próxima atração do coro será dia 8 de agosto, em homenagem ao dia dos pais. Ainda neste mês, uma festa caipira vai rolar na quadra Boca de Siri. Geise quer um espaço fixo para sua escola de música, onde possa ensaiar e guardar os equipamentos. Ela irá se inscrever também para o edital Territórios de Cultura, que pretende beneficiar 15 projetos por toda a Maré. Enquanto isso, ela faz de sua laje um grande palco de sonhos.

Texto originalmente publicado no Portal RioOnWatch.