O Conjunto de Favelas da Maré era um território antes mesmo de ser. Os manguezais próximos da Baía de Guanabara passam por uma mudança histórica jamais imaginada: o povoamento da maré, nos anos 40. O Morro do Timbau, o primeiro morro da Maré, tinha terra suficiente para migrantes do Nordeste ocuparem o espaço.

Um desses nordestinos é Pedro Fernandes da Silva. Chegou na Baixa do Sapateiro aos 18 anos, cheio de sonhos e vontade de trabalhar em 1975. Com o crescimento industrial da cidade do Rio de Janeiro, tinham muitas vagas para construção civil – dava até para escolher. Começou como Servente de obras, depois como lojista.

A Av. Brasil era estruturada, mas próximo à Maré a água dominava. Pedro circulava de barco à remo pela sua favela. E sua moradia era parecida com todas as outras dali: feita de palafitas. O jeito era bater a perna de três, com 2m de altura e forçar para encontrar no fundo do manguezal uma terra firme para construir seu barraco. Sobre a água. Conseguiu.

Os caminhos de tábuas ligavam uma casa a outra. Pontes improvisadas, ligavam a vizinhança: e para segurar, só os muros de madeira. Ainda sim algumas pessoas caíam na travessia. Era engraçado, até lembrar que a água era suja. O saneamento básico não existia ali, mas ainda assim o jeitinho de resolver as coisas inspirava os nordestinos-mareenses para ação. A nomeação dos becos e ruas, se davam quando o morador do local falecia. A história e a memória do lugar se constrói em uma terra de contraste: felicidade em viver ali, sem nenhuma violência, mas com poucos direitos.

Antes de Pedro chegar na Baixa do Sapateiro, dois irmãos já estavam na Maré. E a comunicação que tinham um com o outro era através de cartas. A entrega levava de 8 à 15 dias para ir do Rio de janeiro a Paraíba. De mês em mês, conversavam e convidavam para morar próximo, também. No final, dos 14 irmãos, seis decidiram se juntar na favela.

Um morador conhecido como João da luz, fazia toda a instalação de luz da região. Cobrava de porta em porta. E assim funcionou por muito tempo. Para buscar água potável – para cozinhar, lavar etc, Pedro usava um barco a remo. Colocava seis latões vazios. Remava até a Ilha do Governador e trazia sua água, que durava cerca de três dias. As viagens se repetiram por alguns anos.

O cotidiano não era sempre o mesmo. De noite, a Maré subia. Às vezes, invadia as casas e molhava a cama. Pela manhã, a água abaixava, mas o fedor aumentava. Pedro tinha dificuldade de dormir pela quantidade de mosquitos. Mas sentiu de perto como tudo mudou muito rápido.

Muitas favelas da Maré nos anos 70 ainda não existiam: Vila do Pinheiro e Vila do João, por exemplo. Era difícil construir uma casa. Mas todos queriam. Quem tinha barraco com madeira nova, era como se tivesse um apartamento. Todo mundo comentava e elogiava.

Os próprios moradores passaram a aterrar suas ruas. Compravam entulho e o caminhão trazia. Aos poucos, todas as famílias transformaram juntas o seu território. A busca era por uma vida melhor. Quando o Governo de Carlos Lacerda percebeu a mudança na Maré, finalizou o serviço. Aterrou o restante do espaço e entregou casas de alvenaria para alguns moradores, das novas favelas.

Já Pedro Fernandes, comprou sua casa por 400 cruzeiros. Foi difícil, o dinheiro não rendia. Mas as lojas de material de construção do entorno, facilitavam as compras – deixavam dividir em até 20 vezes.

Para fazer o acabamento da casa, a laje, moradores faziam mutirão nos domingos. Cada semana em uma casa diferente. Os moradores se ajudavam muito. Seu sonho realizado: uma casa de alvenaria. Pedro só quis casar depois de ter sua casa própria. E deu certo. Chamou Maria José, que já conhecia no Nordeste, para vir à Maré. Se casaram e tiveram um casal de filhos. Dali em diante, a história de mais uma família Silva começava.

Texto publicado originalmente na Plataforma Nobrasil.