Ora vestindo um quimono, ora vestindo a batina; ora ocupando o altar, ora em cima do tatame. Assim é a rotina de Padre Sérgio. Conhecido pelo jeito sereno e sorridente, ele também é lutador de jiu-jitsu. Sua história nas artes marciais antecede o sacerdócio: aos 12 anos ele conheceu o judô, mas só aos 30, já padre, voltou a praticar artes marciais.

Após sua experiência missionária no interior do Mato Grosso, o padre, que também é bacharel em filosofia e teologia, foi enviado à Paróquia Jesus de Nazaré, localizada na Baixa do Sapateiro, na Maré. Reunindo suas habilidades, passou a participar ativamente do projeto “Blindado por Jesus Jiu-Jitsu”, que ajuda crianças e jovens de várias localidades do Conjunto de Favelas da Maré.

O “Blindado” funcionava em uma academia próxima à paróquia onde Padre Sérgio atua. Sabendo de um espaço disponível na igreja, alguns jovens do projeto foram dialogar com ele para que pudessem ampliar a rotina de treinos. Foi aí que o padre começou a treinar e se reencontrou nas artes marciais, coisa que não fazia desde a infância.

“Pegamos emprestado um pedaço da igreja para treinar porque a gente acredita que o esporte pode ajudar a tirar a criança e o jovem da violência e das drogas. O esporte é como um veículo de disciplina, educação e formação também”, conta o padre Sérgio que, com a oportunidade próxima de casa e com a facilidade de praticar o esporte, se apaixonou definitivamente pelo jiu-jitsu. “Hoje sou adepto, sou fã do jiu-jitsu e recomendo para pessoas que queiram fazer alguma arte marcial”, indica.

A cultura oriental também tem vez na Maré. Não só o número de restaurantes japoneses têm crescido, como também a cultura dos animes e mangás, o que acaba refletindo no interesse dos jovens pelas artes marciais, já que eles buscam aproximações com a cultura oriental.

Foi justamente surfando nesta onda que Paulo Alberto fundou o “Blindado por Jesus Jiu-Jitsu” em 2015. Nascido e criado no Morro do Timbau, ele começou sua carreira há 16 anos. Hoje ele é faixa preta 1º dan (grau de maestria) e oferece aulas de jiu-jitsu sem cobrar nada das meninas e meninos que participam. “Eu aprendi sem pagar nada, por isso não acho justo cobrar por isso.” As aulas acontecem duas vezes na semana na paróquia e ainda não contam com nenhum tipo de financiamento.

Esporte e educação como aliados

Padre Sérgio, que está na Maré há dois anos, acredita que o esporte e a educação são aliados para melhorar a qualidade de vida dos jovens da favela. “A educação é um caminho seguro e certo pra gente gerar esperança no coração dos nossos jovens, das nossas crianças. Melhorar a perspectiva de vida, tornar os seus corações ambiciosos de uma boa formação, um bom caminho, e trabalho. Eu vejo que ela é capaz de mudar essa realidade. Ampliar a visão do jovem no campo profissional a olhar o mundo”, filosofa.

escolha do nome do projeto tem relação com a igreja, mas não impede que pessoas de outras religiões participem. Uma das alunas, Jhenifer Pereira, 20 anos, leva fé na iniciativa. “O projeto pra mim é como uma família, quando pensei que estava sozinha no mundo, conheci o jiu-jitsu. O esporte em si me ajudou muito. Sempre fui meio sedentária, depois minha vida mudou completamente, da água pro vinho. Hoje não me vejo sem os treinos. Eu realmente achei alguma coisa na qual me sinto realizada e feliz fazendo”, afirma.

O foco das aulas não são as competições, mas sim o aprendizado para a construção de cidadania e humanidade. Paulo acredita na capacidade de seus alunos de transformar suas realidades. “São grandes guerreiros e guerreiras que me enchem de orgulho a cada dia”.

Outro objetivo do “Blindado” é também ajudar com ações sociais, mutirões e recolhimento de alimentos. Como unir a equipe para doar sangue, montar cestas básicas para famílias em situação de vulnerabilidade da Maré, fazer sopão para os usuários de crack, entre outros.

Projetos de luta fazem sucesso

O conjunto de favelas da Maré é conhecido como um polo rico em projetos culturais e sociais. Blindado por Jesus é um dos espaços que busca jovens para a praticar artes marciais. Outras instituições na comunidade também seguem nesse caminho: Ong Luta pela Paz, Projeto Pequeno Campeão e a Escola de Lutas José Aldo, que oferece aulas de

Judô, Jiu-Jitsu, Boxe e Luta Olímpica.