Jovens comunicadores de favelas vivem em seu cotidiano a dor e a alegria de noticiar sua realidade, trazendo à luz uma mídia que deixou de ser mais uma necessidade e se tornou uma realidade nos territórios das favelas, expondo a vivência real e colocando o morador como personagem principal. Alguns chamam de jornalismo comunitário, alternativo ou popular. Outros só entendem o termo quando já estão envolvidos.

A cobertura de assuntos é feita de maneira cuidadosa, quando se observa criticamente e entende o que acontece. Com um caderno, caneta e celular, nossos pés percorrem becos em busca de notícia, novidade ou eventos culturais. Nosso lado é o dos direitos humanos. Nós lutamos pela vida.

A partir do conhecimento local e do trabalho de base, nos cercamos de esperanças, no lugar de nos conformar com dificuldades. Elas são um duro estímulo para questionar: se não fizermos essa comunicação, quem vai fazer? De que maneira nós, moradores, podemos mudar nossa realidade através de palavras?

Com inúmeras violações de direitos que acontecem dentro de nossas favelas, nós fazemos intervenção, questionamento, e denúncia. A matéria Cracolândia na Maré: Poder Público Ausente Há Três Anos–publicada no RioOnWatch–por exemplo, apresentou o problema que existe há anos e cobrou soluções. Os usuários de drogas que vivem nesse ambiente não recebem nenhum auxílio para sua recuperação. A importância desse e de outros assuntos se dá também por sua gravidade. É natural o interesse do comunicador comunitário em expor situações tão impactantes na vida de sua favela, como é o caso dessa cracolândia.

A visibilidade e comoção local geram impacto. Na comunidade, passar por processos como esse afirma o morador como apoiador e divulgador da notícia. Já quando mídias internacionais apoiam a comunicação comunitária, a exposição do problema é máximo e sua solução facilitada.

Como o caso da matéria Maré Reclama por Saneamento Básico–publicada no Viva Favela–que expôs a realidade da comunidade, contrariando as afirmações da Prefeitura do Rio, na sua propaganda, sobre o novo sistema de coleta. A publicação desta matéria resultou na mobilização da Comlurb para um trabalho mais intenso nos lugares mais precários.

Graças ao olhar mundial para a Maré por causa da ocupação militar, diversas promessas foram feitas pelas autoridades. Sendo assim, a Nave do Conhecimento também mereceu atenção. No entanto, sem a cobrança dos moradores por desconhecerem a promessa divulgada no site institucional da Prefeitura, a reclamação pela ausência da construção do espaço educativo de ciência e tecnologia só aconteceu por meio de uma matéria de jornalismo comunitário, sendo capaz de conscientizar no território, abrir muitas mentes e ser mais potente por advir da própria comunidade.

O objetivo de comunicar situações publicamente é desconstruir estereótipos, dar voz aos moradores da comunidade e falar da visão de dentro, para aqueles que desconhecem. Esse trabalho é pequeno, tem necessidades e depende da vontade e fé de que mudanças irão ocorrer seja coletivamente ou na formação pessoal, intelectual, moral ou social dos indivíduos. Informar pessoas dessa maneira é a única alternativa que jornalistas das camadas populares têm para ter liberdade nas pautas escolhidas e não confundir sua ideologia com a de grandes empresas.

Na prática, as autoridades não têm preocupações com o impacto direto dessas matérias. Mas os veículos alternativos que apoiam esse ato contribuem para que a sociedade desconstrua suas certezas e pense para além do senso comum. O Estatuto da Juventude apoia tudo isso. Ele afirma o direito dos jovens de se informarem e de se expressarem, além de definir medidas para que nossos pontos de vista sejam transmitidos.

O jovem da favela não vai se calar enquanto houver meios de erguer sua voz e resistir perante a um Estado que oprime o favelado. Matérias publicadas são apenas uma parte do processo da caminhada, na luta por direitos e pela vida. Sabemos que vale a pena resistir!

Texto originalmente publicado no Portal RioOnWatch.