Pouca gente sabe, mas dentro da Maré existe um Parque Ecológico cujo terreno tem a área de dez campos de futebol. Chamado de Ilha dos Macacos nos anos 80, hoje ele é um exemplo do que o esforço coletivo de uma comunidade pode realizar. O parque foi também o primeiro criadouro de macacos da América Latina e tinha um espaço reservado para pesquisas. Hoje ele é o único parque entre as 16 favelas da Maré e uma realização onde os moradores são os protagonistas.

A Vila dos Pinheiros é o local onde as ruas são lotadas de árvores, flores e mudas que trazem grande sensação de bem-estar. Há quem decore a frente da casa com elas e molhe os vasos de flores toda manhã. O contato com a natureza é direto – o que facilitou na hora de lutar por um espaço onde a preservação ambiental fosse prioridade.

O plantio da árvore pau brasil, na entrada do Parque, foi o pontapé inicial para o ritmo sustentável que começou a se estabelecer. Francisco Valdean, autor do blog O Cotidiano e morador da Maré, relata que há cinco anos o parque estava completamente abandonado. Desde a criação do canal, ele fazia denúncias sobre a situação.

Paralelamente, a população já vinha começando a se mobilizar para manter o parque vivo. Com a mudança do exército para a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), no final do mês passado, representantes da Fundação Parque e Jardins anunciaram que contribuiriam para a revitalização de todo o espaço com sua ocupação cultural, em parceria com a Prefeitura do Rio. Ainda segundo Valdean, a concretização do projeto levou anos.

Juventude mobilizada

O meio ambiente começou a ser assunto no Pinheiro entre os jovens e crianças após a mobilização pelo retorno do parque. Projetos envolvendo mutirões de reflorestamento, plantação de hortas comunitárias e jogos de educação ambiental começaram a se multiplicar pela comunidade nos últimos anos. Um exemplo é o trabalho desenvolvido pelo artista e ativista Bhega Silva, mareense conhecido por recolher óleo de cozinha usado em troca de seus Cds. Além de circular com uma bicicleta de som, ele toca no violão músicas autorais sobre preservação da natureza.

O coletivo Juventude Relevante, composto por jovens evangélicos, e o Instituto Pereira Passos se juntaram a Bhega nesta empreitada e passaram a contribuir nas ações de preservação do meio ambiente. “Para mim é gratificante poder somar, contribuir no espaço que aprendi muito e que vivo até hoje”, conta Gabriel Oliveira, líder do Coletivo e morador da Maré.

Parque contribui para consciência ambiental

Dezessete árvores e mais de 200 mudas foram plantadas durante a inauguração

O Parque foi oficialmente reinaugurado há um mês, com um grande evento que envolveu todas as favelas da Maré. Instituições de diferentes segmentos que atuam no local trouxeram a reflexão de que é possível cuidar dentro do meio ambiente sem muitos recursos e dentro da favela.

Os alunos da Escola Municipal Paulo Freire ajudaram no plantio de 17 árvores e 200 mudas de plantas por todo o perímetro do local. Mostrar de perto como é importante preservar o espaço que já existe, é cuidar do meio ambiente para ter uma favela mais limpa, verde e sustentável.

Jaira Silva, moradora do Pinheiro, trouxe seu filho especialmente para plantar uma muda. Empolgada, ela acha importante que eventos como esse aconteçam. “Eu acho ótimo isso tudo. Também ensino meus outros dois meninos a não jogar lixo no chão. Nós, mães, temos que escolher educar os filhos ou trabalhar. Eu escolhi educar. Trouxe o pequeno para colocar a mão na massa, conhecer de perto a natureza”, garante.

A inauguração do Parque foi o ponto de partida para o Projeto Cuidadores da Maré, que propõe para crianças e jovens auxílio na educação ambiental, no esporte e lazer. A previsão de início é 1°semestre de 2016, segundo o Coletivo Relevante que planeja o projeto.

Texto publicado no Portal Viva Favela.