A ameaça de despejo movida em agosto de 2014 pelo Grupo Libra de Comércio Marítimo, dona do imóvel que abriga o Museu da Maré, acendeu mais um alerta sobre um problema que aflige as comunidades cariocas: a especulação imobiliária. A alta no preço dos imóveis em áreas populares teve início em favelas e morros da Zona Sul, como Vidigal e Cantagalo, graças ao apelo turístico, suas belezas naturais e promessas de segurança.

A alta dos preços, mais comum no asfalto, espalhou-se e rapidamente chegou às favelas do Complexo da Maré. Para tentar reverter a situação do Museu, diretores e frequentadores criaram o movimento “Museu da Maré resiste!” e, após duas prorrogações, graças à luta por cultura e memória da favela, o despejo foi cancelado em março de 2015.

Miriane Peregrino, 34 anos, colaboradora do setor de Arquivo e da área Educativa do Museu, afirma. “Ele tem uma história que não é só a da Maré, é uma história que inclui a Maré como parte da cidade e protagoniza a vivência das classes populares porque a nossa história não está contada em outros espaços”. Fundado em 2006, o Museu foi o primeiro a ser construído dentro de uma favela. O Grupo Libra foi contatado através de sua assessoria de imprensa, mas não revelou o motivo de querer reaver os dois galpões.

Remoções no passado, especulação no presente

Desde a década de 1950, quando o fenômeno das remoções começou a fazer parte da história das favelas cariocas, a falta de reconhecimento do terreno ocupado como habitação digna de moradia tornou-se evidente. Esses territórios, que antes eram opções viáveis por conta da falta de políticas habitacionais, vêm reproduzindo o que há muito ocorre no asfalto: a alta no preço dos imóveis.

Mesmo com graves e contínuos problemas de infraestrutura e de violência, com cerca de 130 mil habitantes, segundo o Censo divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2010 e quase nenhuma política de financiamento, o Conjunto de Favelas da Maré vê seus imóveis serem vendidos e alugados a preços cada mais desproporcionais à realidade dos moradores. Cartazes espalhados por todas as comunidades anunciam casas de dois quartos que chegam a custar R$150 mil o Conjunto Vila dos Pinheiros, apartamentos de dois quartos que no início dos anos 2000 eram negociados por 10 mil reais, hoje não saem por menos de R$ 70 mil.

Lilian Zacarias de Lima, 33 anos, moradora do Pinheiro, relembra que na época comprou o apartamento em que reside com o marido por R$ 11 mil. “No meu prédio uma das moradoras chegou a anunciar o apartamento dela com vaga garagem por R$ 100 mil. Não conseguiu vender e resolveu alugar.” Segundo dados do Sindicato de Habitação do Rio, em bairros do entorno, como a Ilha do Governador, o valor do metro quadrado em dezembro de 2014 foi a segunda maior variação de locação na Zona Norte.

A Maré segue na mesma tendência. O preço dos aluguéis tem surpreendido os moradores. A cabeleireira Patrícia Santos, 29 anos, alugou, há seis meses, uma loja para montar seu salão e desembolsa mensalmente R$ 500 por um espaço de mais ou menos seis metros quadrados: “Quando comecei a negociar, o dono queria cobrar R$ 600 pelo aluguel, mas eu consegui um desconto. Em contrapartida, tive que adiantar dois meses de depósito, além do aluguel do mês, ou seja, para entrar tive que pagar 1.500”, conta.

Opção de negócio para empresários de fora da favela

O comércio diversificado e bem farto por todas as 16 comunidades que compõem a Maré, tem chamado a atenção de empresários de outros bairros. A corretora Verônica Dionísio, uma das proprietárias da imobiliária Fagundes Imóveis, que tem unidades no Parque União, Nova Holanda, Vila do Pinheiro e na Vila do João, contou que recentemente intermediou uma negociação para locação de uma loja para abertura de um restaurante self-service. “O dono de um café em Copacabana resolveu investir em um negócio aqui na região. Uma de suas funcionárias morava por aqui, deu a ideia e ele embarcou”, disse.

Segundo ela, o preço das casas por toda a Maré tem aumentado muito nos últimos anos e as comunidades que mais sofrem com os altos preços são o Parque União e a Vila do João. Verônica atribui esta valorização à proximidade das duas comunidades com Avenida Brasil, mas revela que raramente estes imóveis têm compradores. “Aqui na corretora o que mais vendemos é quitinete com quarto, cozinha e banheiro que variam entre R$30 e R$40 mil reais”, explica.

Como a maioria das casas não tem escritura ou RGI (Registro Geral de Imóveis), os bancos não podem abrir linhas de financiamento para quem está interessando em comprar. Ainda segundo a corretora somente alguns apartamentos do Conjunto Esperança têm essa documentação, pois isto é algo muito raro. Ainda assim, é impossível não perceber que a realidade tem mudado: o asfalto está subindo para o morro.

Texto feito com Viviane Oliveira e originalmente publicado no site Viva Favela.